O Impacto do IFC 4.3 na Infraestrutura
Descubra como a nova atualização do padrão IFC 4.3 expande o openBIM para obras horizontais, garantindo interoperabilidade em rodovias, ferrovias, pontes e portos.
Baixar Infográfico em Alta ResoluçãoAté pouco tempo, usar IFC em projetos de infraestrutura exigia adaptações. O formato foi criado pensando em edificações, e conceitos essenciais para rodovias, ferrovias e pontes, como traçado geométrico e estaqueamento, não tinham representação nativa no esquema. Isso forçava equipes de infraestrutura a exportar modelos incompletos ou a abandonar o IFC em favor de formatos proprietários, perdendo a interoperabilidade que é a principal vantagem do OpenBIM. O IFC 4.3 muda esse cenário ao incorporar oficialmente os domínios de infraestrutura ao esquema.
Antes de avançar, se alguns termos deste artigo, como alinhamento, traçado ou estaqueamento, não forem familiares, vale consultar o glossário de termos da construção da SPBIM.
O que é o IFC 4.3 e o que mudou
O IFC 4.3 é a versão do esquema IFC publicada pela buildingSMART International com suporte nativo a projetos lineares de infraestrutura. A mudança central foi a introdução do conceito de alinhamento (Alignment) como elemento de referência geométrica, permitindo representar o traçado de uma rodovia, ferrovia ou duto da mesma forma consistente em diferentes softwares.
Na prática, o IFC 4.3 estende o esquema para cobrir quatro novos domínios: rodovias, ferrovias, pontes e portos. O elemento Alignment passa a ser a referência geométrica comum entre disciplinas, permitindo que projeto geométrico, terraplenagem e estruturas compartilhem o mesmo eixo de referência dentro de um único modelo federado.

Um estudo publicado em 2021 na revista Automation in Construction, conduzido por pesquisadores da Universidade de Vigo, detalha essa evolução: o IFC 4.1 introduziu o Alignment como sistema de referência linear para posicionar elementos e conectar diferentes infraestruturas em uma rede de transporte. O IFC 4.2 chegou a incluir pontes, mas a versão foi retirada quando a buildingSMART decidiu unificar todos os domínios de infraestrutura em uma única publicação, o que deu origem ao IFC 4.3.
Essa evolução também está formalizada como norma internacional: o esquema IFC é reconhecido pela ISO como a ISO 16739-1, e a edição mais recente do documento, de 2024, passou a cobrir explicitamente dados de infraestruturas como pontes, rodovias, ferrovias, hidrovias e instalações portuárias ao longo de todo o ciclo de vida do empreendimento.
Ferramentas e fluxo de trabalho compatíveis com o IFC 4.3
Softwares como Civil 3D, InfraWorks e as soluções da Bentley (OpenRoads e OpenRail) já vêm ampliando o suporte à exportação em IFC 4.3, especialmente para o elemento Alignment. Para conferir se os arquivos exportados realmente carregam a geometria e os dados esperados, vale usar a verificação de modelos IFC antes de enviar o modelo para compatibilização com as demais equipes do projeto.
Equipes que já trabalham com Revit e Navisworks em projetos de edificações podem estranhar os novos tipos de elementos de infraestrutura no IFC 4.3, já que a lógica de traçado linear é diferente da lógica de elementos discretos usada em prédios. Investir em capacitação específica, como os cursos de BIM voltados a fluxos de trabalho de infraestrutura, ajuda a equipe a evitar erros de interpretação do novo esquema. Materiais gratuitos sobre o tema também estão disponíveis na Biblioteca BIM da SPBIM.
O que muda na prática para rodovias e infraestrutura
Alinhamento geométrico
O Alignment do IFC 4.3 permite representar o eixo da via com curvas horizontais, verticais e superelevação em um único elemento, referenciado por todas as disciplinas do projeto. Isso elimina a necessidade de recriar o traçado manualmente em cada software usado ao longo do projeto.

Pesquisadores que testaram a geração automática de modelos IFC para rodovias a partir de nuvens de pontos descrevem o Alignment como o componente mais importante do modelo, já que atua como referência para posicionar todos os demais ativos da infraestrutura e é representado como uma polilinha que descreve o eixo central da via.
Terraplenagem e modelagem de terreno
Superfícies de terreno existente e de projeto (cortes e aterros) agora têm representação padronizada, o que facilita o cálculo de volumes e a comparação entre soluções de terraplenagem propostas por diferentes projetistas, sem depender de conversões proprietárias.

O mesmo estudo mostra que o IFC 4.3 permite anexar conjuntos de propriedades, como o Pset_RoadDesignCriteriaCommon, diretamente aos elementos do modelo, reunindo dados como declividade transversal, velocidade de projeto e número de faixas junto à geometria da via, o que amplia o valor do modelo para além da representação visual.
Interoperabilidade entre projetistas e órgãos públicos
Como o IFC 4.3 é um formato aberto e não proprietário, ele reduz a dependência de um único fabricante de software em licitações e contratos públicos de infraestrutura, algo especialmente relevante em projetos financiados ou fiscalizados por órgãos governamentais. O tema se conecta diretamente com o que já discutimos sobre BIM aplicado a obras públicas, onde a padronização de formatos também é um fator crítico de transparência.

Segundo os autores, o uso do IFC como modelo de dados comum aumenta a interoperabilidade entre os membros do projeto mesmo em empreendimentos multidisciplinares de grande porte, como costuma ocorrer em projetos de infraestrutura de transporte.
O fluxo OpenBIM permite a troca de informações entre diferentes softwares sem dependência de formatos proprietários.
Essa interoperabilidade tem respaldo normativo: a ISO 16739-1 define o esquema de dados do IFC como padrão internacional aberto para troca de informação entre softwares, e funciona em conjunto com a ISO 19650, que trata da gestão da informação ao longo do projeto, o que ajuda a explicar por que contratos públicos de infraestrutura têm exigido cada vez mais o uso desses padrões.
Benefícios práticos do IFC 4.3 para projetos de infraestrutura
- Elimina a necessidade de workarounds para representar traçados e terraplenagem em IFC.
- Facilita auditorias e checagens de qualidade de modelo com um esquema padronizado entre softwares.
- Reduz a dependência de formatos proprietários em projetos públicos de rodovias e ferrovias.
- Melhora a coordenação entre disciplinas geotécnicas, estruturais e de traçado em um modelo federado único.
Limitações e cuidados na adoção do IFC 4.3
A adoção do IFC 4.3 ainda é desigual entre os softwares do mercado, e nem todos os recursos do esquema estão implementados da mesma forma em cada ferramenta. É comum encontrar exportações parciais, em que o Alignment é reconhecido mas elementos complementares, como dispositivos de drenagem ou sinalização, ainda não têm suporte completo. Por isso, testar a exportação e a leitura do arquivo em diferentes softwares antes de adotar o IFC 4.3 como padrão contratual do projeto é uma etapa que não deve ser pulada, assim como revisar as etapas da implementação do BIM antes de exigir o novo esquema em contratos maiores.
Conclusão
O IFC 4.3 aproxima projetos de infraestrutura do mesmo nível de interoperabilidade que edificações já têm em fluxos OpenBIM. Para equipes de rodovias, ferrovias e pontes, isso significa menos retrabalho na troca de arquivos entre disciplinas e mais transparência em projetos públicos. O próximo passo é mapear quais softwares da sua cadeia de projeto já suportam o esquema e testar a exportação em um projeto piloto antes de exigir o IFC 4.3 em contratos maiores.
fonte: habaugroup
O estudo conclui que a geração automática de modelos IFC a partir de dados de nuvem de pontos representa um primeiro passo relevante para a automação de projetos de infraestrutura, com expectativa de que o suporte das ferramentas de mercado ao IFC 4.3 continue evoluindo nos próximos anos.
A adoção do IFC 4.3 fortalece a interoperabilidade e amplia o uso do OpenBIM em projetos de infraestrutura ao longo de todo o ciclo de vida do empreendimento
Se sua equipe está avaliando a adoção do IFC 4.3 em projetos de infraestrutura, fale com nossos especialistas da SPBIM. Você também pode conhecer nossos serviços de implantação BIM ou conhecer a SPBIM e a equipe por trás desses projetos.
Referências: JUSTO, A.; SOILÁN, M.; SÁNCHEZ-RODRÍGUEZ, A.; RIVEIRO, B. Scan-to-BIM for the infrastructure domain: generation of IFC-compliant models of road infrastructure assets and semantics using 3D point cloud data. Automation in Construction, v. 127, 2021. ISO 16739-1:2024. Industry Foundation Classes (IFC) for data sharing in the construction and facility management industries — Part 1: Data schema. International Organization for Standardization.
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