BIM em Obras de Infraestrutura: Como Reduzir Retrabalho em Rodovias, Pontes e Saneamento
Descubra como a integração entre o BIM e a Realidade Aumentada (RA) eleva a visualização de projetos a um novo patamar. Veja como a projeção de modelos 3D diretamente no canteiro de obras facilita a validação da execução, melhora o controle de qualidade e previne erros antes mesmo da instalação.
BIM e Realidade Aumentada
Retrabalho é aquilo que se executa mais de uma vez: a fundação refeita porque a locação estava errada, a tubulação demolida porque cruzava uma galeria existente, a armadura substituída porque o desenho de fôrma e o de ferragem não conversavam. Na literatura, o custo do retrabalho em projetos de engenharia civil aparece entre 5% e 20% do valor da obra, faixa reportada por Barber e colegas (2000) e retomada em estudo recente publicado na Scientific Reports (ELSEUFY; HUSSEIN; BADAWY, 2026).
Em obras de infraestrutura, esse problema ganha escala. São escopos lineares e extensos, com muitas interfaces entre disciplinas, interferência com redes existentes e prazos que afetam diretamente a população. Neste artigo, mostramos como o BIM aplicado a construtoras ajuda a reduzir o retrabalho em rodovias, pontes e saneamento, o que a evidência científica realmente demonstra e quais cuidados você precisa ter ao interpretar os números.
Por que o retrabalho pesa tanto na infraestrutura
Um edifício costuma ter um lote definido e um conjunto relativamente contido de disciplinas. Uma rodovia, uma ponte ou uma rede de esgoto convivem com condições muito mais incertas: topografia variável, solo pouco conhecido, redes de concessionárias que nem sempre estão bem cadastradas e frentes de serviço distribuídas ao longo de quilômetros.
As causas mais comuns de retrabalho nesse contexto se repetem em praticamente todos os segmentos:

fonte: bsmaenterprises
- Erros e inconsistências de projeto: dimensões, quantitativos e cotas que não fecham entre pranchas 2D.
- Falhas de coordenação entre disciplinas: interação não resolvida entre estrutura, drenagem, pavimentação, iluminação e instalações.
- Interferências com o existente: redes enterradas, estruturas a demolir e elementos a preservar mal identificados.
- Falhas de sequenciamento: atividades executadas fora da ordem lógica por falta de visualização do canteiro no tempo.
Todas essas causas têm um ponto em comum: elas poderiam ter sido detectadas antes da execução, se a informação do projeto estivesse integrada em um único modelo.
Como o BIM ataca as causas do retrabalho
O BIM não elimina o retrabalho por si só. O que ele faz é antecipar a descoberta dos problemas para o ambiente virtual, onde corrigi-los custa muito menos. Na prática, isso acontece em quatro frentes.
Modelagem paramétrica e verificação de quantitativos
Ao modelar os componentes em 3D, inconsistências de dimensão e quantidade que passariam despercebidas em desenhos 2D aparecem na própria construção do modelo. No caso de ponte analisado no estudo, a modelagem paramétrica revelou falhas de projeto como imprecisões de dimensões e de quantidades de diversos componentes.

fonte:aecbytes
Detecção de interferências (clash detection)
A sobreposição dos modelos de estrutura, drenagem, redes e elementos existentes permite identificar conflitos geométricos antes de qualquer escavação. Para quem está começando a estruturar esse fluxo, vale conhecer os pilares do BIM, em que a tecnologia é apenas uma das partes de um processo maior.
Simulação 4D do cronograma
Vincular atividades do cronograma aos elementos do modelo permite simular a construção e enxergar problemas de sequência, acesso e demolição. No estudo, o cronograma foi integrado ao Navisworks e as atividades foram diferenciadas entre as relacionadas à estrutura existente e as relacionadas à demolição.

Estimativa e controle de custos 5D
Com custos associados aos elementos do modelo, é possível prever o fluxo de caixa mensal e identificar onde o retrabalho mais pressiona o orçamento. Os autores destacam que o 5D apoia a estimativa de custos, o acompanhamento e a previsão orçamentária em obras de grande porte.
fonte:infrasatu
O que a evidência científica mostra: o caso das pontes
O estudo de Elseufy, Hussein e Badawy (2026), da Universidade Ain Shams, no Egito, é um dos poucos trabalhos que tentam quantificar o efeito do BIM sobre o retrabalho especificamente em pontes. Os autores combinaram três abordagens: um levantamento com profissionais, análise estatística e um estudo de caso simulado. É importante separar o que cada uma delas permite concluir.
1. Levantamento com 253 projetos: associação estatística
Foram analisados 253 projetos de pontes, sendo 41 com BIM e 212 sem BIM. Os resultados mostram diferenças relevantes entre os grupos:
- Estouro de custo: 26,83% nos projetos com BIM contra 79,24% nos projetos sem BIM.
- Estouro de prazo: 19,51% nos projetos com BIM contra 62,26% nos projetos sem BIM.
- Projetos que precisaram de retrabalho: 36,58% com BIM contra 47,16% sem BIM.
O efeito variou conforme o porte. Em obras acima de 100 milhões, o retrabalho ocorreu em 22,22% dos projetos com BIM e em 35,71% dos projetos sem BIM, diferença estatisticamente significativa. Já nas obras abaixo de 15 milhões, não houve diferença significativa entre os grupos. Isso sugere que o BIM tende a render mais em projetos maiores e mais complexos, algo coerente com a lógica de coordenação entre muitas disciplinas.
2. Estudo de caso: estimativas modeladas
O caso analisado foi a Ponte do Eixo King Salman, no Egito, executada com métodos tradicionais e desenho 2D. O cronograma previa 169 dias, mas o retrabalho gerou um atraso de cerca de 76 dias, levando a obra a 245 dias. O custo adicional causado pelo retrabalho superou 27 milhões de libras egípcias (L.E.).
Os autores então reconstruíram o projeto com Revit, Navisworks e Microsoft Project para estimar o que teria acontecido com BIM. A tabela a seguir resume as cinco causas de retrabalho identificadas e o efeito estimado da modelagem.
| Causa de retrabalho | Atraso (dias) | Dias evitados com BIM | Custo (L.E.) | Custo evitado (L.E.) |
| Falhas de projeto reveladas pela modelagem 3D paramétrica | 16 | 10 | 8.350.246 | 5.526.985 |
| Pilares não compatíveis com as juntas das nervuras | 7 | 6 | 3.236.965 | 2.148.965 |
| Inconsistências dos desenhos 2D reveladas pela montagem virtual | 25 | 20 | 4.126.539 | 2.958.965 |
| Interação entre elementos estruturais e arquitetônicos | 15 | 12 | 5.632.526 | 4.126.966 |
| Erros de projeto | 13 | 11 | 6.132.547 | 5.029.632 |
| Total | 76 | 59 | 27.478.823 | 19.791.513 |
Fonte: adaptado de Elseufy, Hussein e Badawy (2026), Tabela 4.
Segundo a simulação, o atraso causado por retrabalho cairia de 76 para 17 dias, uma redução de aproximadamente 77,6%. Em custo, dos cerca de 27,5 milhões de L.E. gastos com retrabalho, algo em torno de 19,8 milhões teriam sido evitados, ou seja, cerca de 72% do total. Em horas de trabalho acumuladas, o cenário com BIM ficou em 1.900 horas, contra 2.452 horas do cenário tradicional e 1.832 horas do planejado, uma redução de 22,5% em relação ao realizado.
3. Indicadores de desempenho (EVM)
Os autores também aplicaram o Gerenciamento do Valor Agregado (EVM). O SPI mede a eficiência de prazo e o CPI, a eficiência de custo; valores mais próximos de 1,0 indicam desempenho mais próximo do planejado.
| Cenário | SPI | CPI | Variação de custo (L.E.) |
| Ponte sem BIM | 0,633 | 0,565 | -5.517.377 |
| Ponte com BIM | 0,850 | 0,829 | -1.976.500 |
Fonte: adaptado de Elseufy, Hussein e Badawy (2026), Tabela 5.
O SPI passou de 0,633 para 0,850 e o CPI, de 0,565 para 0,829. Mesmo com BIM, os índices permanecem abaixo de 1,0, o que indica que o retrabalho foi reduzido, mas não eliminado.
Como interpretar esses números com responsabilidade
Os próprios autores fazem ressalvas que devem acompanhar qualquer citação do estudo. Os percentuais de redução de 70 a 85% no tempo e de 65 a 75% no custo de retrabalho vêm de cenários modelados com ferramentas 4D e 5D, e não de medições diretas em obra. As comparações estatísticas indicam associação, e não causalidade, pois práticas de gestão, cultura organizacional e capacitação da equipe também influenciam o retrabalho. Além disso, a amostra é desbalanceada (41 projetos com BIM contra 212 sem BIM) e concentrada no contexto egípcio.
Em outras palavras: o estudo é um forte indício de que o BIM reduz o retrabalho em pontes, mas não é uma promessa de resultado para qualquer obra.
Aplicações práticas por tipo de obra
O estudo científico analisado trata de pontes. Para rodovias e saneamento, o que segue são aplicações práticas do mesmo raciocínio, sem números específicos, já que a pesquisa não mediu esses segmentos.
Rodovias
- Modelos de corredor e terraplenagem: o traçado, as seções e os volumes de corte e aterro ficam conectados, de modo que uma alteração de geometria atualiza quantitativos e evita retrabalho de cálculo.
- Interferências com redes e faixas de domínio: o modelo permite cruzar o traçado com utilidades existentes, drenagem e obras de arte especiais antes da mobilização.
- Sequenciamento por trechos: a simulação 4D ajuda a organizar frentes de serviço, desvios de tráfego e acessos ao longo da extensão da obra.
Pontes e viadutos
- Compatibilização entre estrutura, apoios e elementos complementares: foi justamente aqui que o estudo encontrou parte relevante do retrabalho, como pilares incompatíveis com juntas e inconsistências entre pranchas 2D.
- Etapas construtivas e demolições: a simulação 4D diferencia o que é existente, o que será demolido e o que será construído.
- Controle de custos por elemento: o 5D permite acompanhar o impacto financeiro de cada alteração de projeto.
Saneamento
- Redes existentes e novas: o cruzamento entre traçados de água, esgoto e drenagem com cadastros de outras concessionárias reduz o risco de escavação sobre interferências não previstas.
- Estações e elevatórias: estruturas com muitas tubulações, equipamentos e disciplinas concentradas se beneficiam da detecção de conflitos em modelo.
- Documentação conforme construído: o registro fiel do que foi executado facilita a operação e futuras intervenções. Veja o que é o As Built e para que ele serve e como o BIM apoia a gestão de facilities ao longo do ciclo de vida do ativo.
Padrões de informação: ISO 19650 e IFC
Reduzir retrabalho depende tanto de tecnologia quanto de como a informação é organizada e trocada. A série ISO 19650, em sua parte 1, estabelece conceitos e princípios para a gestão da informação ao longo do ciclo de vida de ativos construídos com uso do BIM, o que inclui definir quem produz, quem valida e quem recebe cada informação. Sem essa disciplina, o modelo vira apenas mais um arquivo desatualizado.
Para a troca de dados entre softwares, a ISO 16739-1 define o esquema IFC, formato aberto voltado ao compartilhamento de dados na construção e na gestão de facilities. Sua evolução para infraestrutura (IFC 4.3) é relevante para quem trabalha com rodovias, pontes e redes. Modelos trocados em IFC podem ser verificados quanto à qualidade com ferramentas como o SimpleBIM, reduzindo erros de interoperabilidade que também geram retrabalho.
No Brasil, vale acompanhar também o avanço do BIM em obras públicas, já que o setor de infraestrutura é fortemente ligado a contratações governamentais.
Como começar a reduzir retrabalho com BIM na sua obra
- Mapeie onde o retrabalho acontece. Levante as principais causas nas últimas obras (projeto, coordenação, interferências, sequência) e priorize as mais custosas.
- Defina requisitos de informação. Estabeleça o que cada modelo deve conter, em que nível de detalhe e em qual formato de entrega, seguindo a lógica da ISO 19650.
- Comece pela compatibilização. A detecção de interferências entre disciplinas costuma ser o ganho mais rápido e mensurável. Conheça as etapas do processo de implementação do BIM em um projeto.
- Integre prazo e custo. Depois de consolidar os modelos, vincule cronograma (4D) e orçamento (5D) para simular cenários antes da execução.
- Meça os resultados. Acompanhe indicadores como a razão entre custo de retrabalho e custo total da obra, e o SPI e o CPI, para comprovar o efeito na sua realidade.
- Capacite a equipe. Ferramenta sem domínio técnico não entrega resultado. Confira os cursos de BIM da SPBIM para preparar modeladores e coordenadores.
Conclusão
O retrabalho é um dos custos mais persistentes da construção, e a infraestrutura, com sua extensão e complexidade, é um terreno especialmente sensível. A pesquisa de Elseufy, Hussein e Badawy (2026) reforça que projetos de pontes com BIM tendem a apresentar menos estouros de custo e prazo, sobretudo em obras de maior porte, e que simulações 4D e 5D podem antecipar boa parte dos conflitos que causam retrabalho.
Ao mesmo tempo, os números precisam ser lidos com cautela: são associações e estimativas modeladas, obtidas em um contexto específico. A boa notícia é que a lógica se aplica a rodovias e saneamento, desde que o BIM seja tratado como processo, com informação padronizada, equipe capacitada e indicadores para medir o resultado.
Quer estruturar o uso de BIM na sua obra de infraestrutura? Fale com nossos especialistas e descubra como a SPBIM pode ajudar sua equipe a reduzir retrabalho desde o projeto.
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Referências
ELSEUFY, S. M.; HUSSEIN, A.; BADAWY, M. A comprehensive framework for evaluating bridge project rework through earned value management (EVM) and building information modeling (BIM). Scientific Reports, v. 16, art. 7197, 2026. DOI: 10.1038/s41598-025-27546-0.
BARBER, P.; GRAVES, A.; HALL, M.; SHEATH, D.; TOMKINS, C. Quality failure costs in civil engineering projects. International Journal of Quality & Reliability Management, v. 17, n. 4/5, p. 479-492, 2000.
INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 19650-1: Organization and digitization of information about buildings and civil engineering works, including building information modelling (BIM). Information management using building information modelling. Part 1: Concepts and principles. Genebra: ISO, 2018.
INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 16739-1: Industry Foundation Classes (IFC) for data sharing in the construction and facility management industries. Part 1: Data schema. Genebra: ISO.