Torre Eiffel em BIM: recriando um ícone da engenharia do século XIX.
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Torre Eiffel em BIM
Explore como a icônica Torre Eiffel foi modelada e gerenciada através da metodologia BIM. Entenda os desafios da digitalização deste patrimônio histórico, envolvendo o mapeamento detalhado de sua complexa estrutura metálica e o planejamento de manutenções com altíssima precisão.
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Torre Eiffel em BIM
Explore como a icônica Torre Eiffel foi modelada e gerenciada através da metodologia BIM. Entenda os desafios da digitalização deste patrimônio histórico, envolvendo o mapeamento detalhado de sua complexa estrutura metálica e o planejamento de manutenções com altíssima precisão.
Baixar Infográfico em Alta ResoluçãoA Torre Eiffel foi erguida em pouco mais de dois anos, com cerca de 18 mil peças metálicas e 2,5 milhões de rebites, tudo desenhado à mão. Não havia computador, nem software de modelagem, nem nuvem de pontos. Ainda assim, o projeto foi conduzido com uma organização da informação que lembra muito o que hoje chamamos de BIM.
Este artigo usa a torre como exercício: o que ela tinha de “BIM antes do BIM”, como seria recriá-la em um modelo de informação e o que esse caso ensina sobre modelagem de estruturas metálicas, quantitativos e patrimônio histórico. Uma transparência: não encontramos um modelo BIM oficial e público da estrutura completa da torre, então tratamos aqui de método, e não de um projeto real de modelagem.
Este artigo usa a torre como exercício: o que ela tinha de “BIM antes do BIM”, como seria recriá-la em um modelo de informação e o que esse caso ensina sobre modelagem de estruturas metálicas, quantitativos e patrimônio histórico. Uma transparência: não encontramos um modelo BIM oficial e público da estrutura completa da torre, então tratamos aqui de método, e não de um projeto real de modelagem.
Resposta rápida.
Sim, é possível recriar a Torre Eiffel em BIM, e ela é um ótimo caso de estudo. O projeto original já tratava cada peça como um elemento único, com dimensões precisas e fabricação planejada. Em BIM, o desafio não é a geometria, e sim a escala: milhares de peças não padronizadas e milhões de rebites exigem decidir, antes de modelar, para que serve o modelo e qual nível de informação cada elemento precisa ter.
Os números de um projeto à frente do seu tempo.
A construção começou em janeiro de 1887 e foi concluída em 31 de março de 1889, depois de dois anos, dois meses e cinco dias de obra. Segundo a exposição sobre a construção da torre no Google Arts & Culture, o projeto envolveu cerca de 50 engenheiros e desenhistas, 5.300 desenhos de oficina, 18.038 peças metálicas, 2,5 milhões de rebites e 7.300 toneladas de ferro. As peças eram traçadas com precisão de um décimo de milímetro e preparadas na fábrica de Eiffel em Levallois-Perret, nos arredores de Paris.

O desenho estrutural é atribuído aos engenheiros Maurice Koechlin e Émile Nouguier, da empresa de Gustave Eiffel, com contribuições arquitetônicas de Stephen Sauvestre. A torre tinha 300 metros de altura estrutural na inauguração e hoje chega a 330 metros com as antenas.
Por que a Torre Eiffel já era “quase BIM”
O BIM não é só um software: é uma forma de organizar a informação de um empreendimento, apoiada em processo, pessoas e tecnologia, os chamados pilares do BIM. Vista por essa lente, a obra de Eiffel tinha vários traços que um projeto BIM bem conduzido busca hoje:
- Peças únicas e rastreáveis: cada elemento era desenhado e calculado individualmente, com posição definida na estrutura.
- Pré-fabricação: os componentes saíam da oficina prontos para montar, com boa parte dos rebites já colocada antes de chegar ao canteiro.
- Precisão de fabricação: furos e ângulos definidos com tolerâncias muito pequenas permitiam que as peças se encaixassem na obra.
- Planejamento da montagem: andaimes temporários e a sequência de içamento foram pensados com antecedência, uma espécie de 4D feito no papel.
A diferença é que tudo isso vivia em milhares de folhas separadas. Uma alteração em uma peça exigia revisar à mão todos os desenhos e listas afetados. É exatamente esse retrabalho que um modelo único de informação elimina.

Projeto original e recriação em BIM, lado a lado
| Critério | Projeto original (1887 a 1889) | Recriação em BIM |
| Documentação | Milhares de desenhos feitos à mão, entre gerais e de detalhe. | Um único modelo do qual plantas, cortes, detalhes e listas são extraídos. |
| Peças | Cada peça desenhada e calculada individualmente. | Famílias paramétricas: uma lógica reaproveitada em muitas peças, com dimensões variando por parâmetro. |
| Quantitativos | Listas de peças e de materiais levantadas manualmente a partir dos desenhos. | Tabelas geradas do modelo, desde que a modelagem siga regras de medição definidas. |
| Montagem | Sequência planejada com andaimes e peças pré-montadas na oficina. | Simulação 4D, ligando cada elemento ao cronograma. |
| Manutenção | Registros e campanhas periódicas de pintura e inspeção. | Modelo de informação do ativo, com histórico e dados de cada componente. |
A comparação é ilustrativa: ela mostra como cada tarefa seria tratada hoje, e não um projeto real executado sobre a torre.
Como seria modelar a torre?
- Levantamento da realidade: a torre real não é idêntica aos desenhos de 1889. Ela passou por reformas, recebeu antenas e se movimenta: o topo pode se deslocar alguns centímetros com o vento e com a dilatação térmica. Por isso, uma recriação fiel começaria por um levantamento a laser, no mesmo espírito de um As Built, que documenta o que existe de fato.

fonte: sketchfab - Famílias paramétricas: em vez de desenhar 18 mil peças, o modelador cria famílias para os tipos de montante, diagonal, travessa e chapa, e varia dimensões por parâmetro. Uma biblioteca personalizada bem organizada é o que torna isso viável.
- Nível de informação por uso: modelar cada um dos 2,5 milhões de rebites como objeto deixaria o modelo pesado e raramente seria útil. Para a maior parte dos usos, basta registrar a quantidade e o tipo de rebite como informação das peças.
- Classificação e interoperabilidade: o esquema IFC, especificado pela ISO 16739-1, prevê entidades próprias para elementos estruturais lineares, chapas e elementos de fixação mecânica, o que permite trocar o modelo entre softwares sem perder o significado de cada peça (ISO 16739-1:2018). Para validar esses arquivos, ferramentas como o SimpleBIM ajudam a conferir a qualidade do IFC.
A escolha de como modelar tem efeito direto nos números que saem do modelo. Chen et al. (2022) mostram que o mesmo componente pode gerar quantidades diferentes conforme seja modelado como um objeto único ou como várias camadas independentes, e que as regras de cálculo embutidas no software nem sempre coincidem com as regras de medição de cada país. Em uma estrutura como a da torre, decidir isso antes de modelar evita retrabalho depois.
E se fosse para levantar quantitativos?
Um modelo da torre permitiria extrair, por exemplo, o peso de ferro por pavimento, a quantidade de peças por tipo ou a área de superfície a ser pintada. Esse último dado não é teórico: a torre recebe cerca de 60 toneladas de tinta a cada campanha de pintura, repetida a cada poucos anos.
Aqui a literatura traz um alerta útil. No estudo de Chen et al. (2022), um método de mapeamento entre os dados do modelo e as regras de medição gerou quantitativos com diferenças abaixo de 2% em relação a um software de referência, em projetos de edifícios convencionais. Os próprios autores, porém, apontam que componentes fora das bibliotecas padrão de famílias são difíceis de converter automaticamente em itens de orçamento, e que em edificações com muitos desses componentes o trabalho do orçamentista continua pesado. A Torre Eiffel é o exemplo extremo dessa situação: quase nada nela é padrão.
Não encontramos dados publicados de quantitativos extraídos de um modelo BIM da torre. Se você quiser testar o método, um caminho realista é modelar um único módulo da treliça, levantar suas peças à mão e comparar com a tabela gerada pelo software.
BIM e patrimônio histórico: o que já existe
O uso de BIM em edificações históricas, muitas vezes chamado de HBIM, parte quase sempre da captura da realidade. O entorno da própria torre já passou por isso: segundo a Autodesk, entre janeiro e março de 2018 a Prefeitura de Paris contratou o levantamento de cerca de 54 hectares, do Trocadéro ao Champ de Mars, com laser, drones e fotografias. O trabalho resultou em 194 nuvens de pontos com mais de 10,3 bilhões de pontos, usadas para criar um modelo do sítio e apoiar o concurso de requalificação da área, inclusive em realidade virtual (AUTODESK, 2019). Projetos de requalificação urbana como esse também envolvem o BIM aplicado ao paisagismo.
Depois do levantamento, o valor está em manter a informação viva. A ISO 19650 distingue o modelo de informação do projeto, usado durante a entrega, do modelo de informação do ativo, que acompanha a operação e a manutenção ao longo da vida útil (ISO 19650-1:2018). Em um monumento com inspeções e repinturas periódicas, esse segundo modelo é o que sustenta a gestão de facilities, assim como acontece em edifícios complexos como hospitais.
Como recriar um ícone em BIM, passo a passo
- Defina para que serve o modelo. Estudo acadêmico, visualização, quantitativos ou manutenção pedem níveis de detalhe muito diferentes. Registre isso antes de começar, como em qualquer uma das etapas da implementação do BIM de um projeto.
- Reúna a documentação existente. Desenhos históricos, fotografias e, se possível, um levantamento a laser da estrutura atual.
- Decomponha a estrutura em sistemas repetíveis. Pilares, plataformas, arcos e trechos de treliça se repetem com variações, e é aí que entram as famílias paramétricas.
- Crie e organize as famílias. Dê a cada família parâmetros de dimensão, material e classificação, e guarde tudo em uma biblioteca própria do projeto.
- Classifique e teste a exportação IFC. Confira se cada peça chega ao IFC com a entidade e as propriedades corretas.
- Valide contra a realidade. Sobreponha o modelo à nuvem de pontos e ajuste o que o desenho original não mostra, como deformações e acréscimos posteriores.

Dá para fazer isso como exercício de estudo?
Dá, e é um ótimo exercício. Recriar um pilar ou um trecho da treliça treina famílias paramétricas, organização de parâmetros, tabelas de quantidades e exportação IFC em um único projeto. Comece pequeno, termine um módulo completo e só depois pense em escalar. Se quiser materiais para começar, a Biblioteca BIM da SPBIM tem conteúdos gratuitos, e o nosso glossário de termos da construção ajuda com o vocabulário técnico.
Erros comuns
- Modelar tudo no máximo detalhe: milhões de objetos deixam o modelo lento sem trazer ganho para a maioria dos usos.
- Começar sem definir o uso do modelo: sem esse combinado, não há como decidir o que modelar e o que registrar só como informação.
- Usar famílias genéricas sem parâmetros: a geometria até fica parecida, mas o modelo não gera quantitativos nem dados úteis.
- Confiar no quantitativo de peças fora do padrão: quanto menos padronizado o componente, maior a necessidade de conferência manual.
- Modelar só pelo desenho original: estruturas antigas mudaram ao longo do tempo, e o levantamento da condição atual evita surpresas.
Conclusão
A Torre Eiffel mostra que a lógica do BIM, informação organizada, peças rastreáveis e fabricação planejada, é mais antiga que o próprio software. Recriá-la em um modelo é um exercício que expõe as decisões centrais de qualquer projeto: para que o modelo serve, quanto detalhe ele precisa e como a informação vai ser usada depois, da fabricação à manutenção.
Se você quer dominar a modelagem paramétrica que torna esse tipo de projeto possível, veja a grade completa de cursos. Se a sua empresa precisa documentar uma edificação existente em BIM, fale com nossos especialistas. E para receber novos conteúdos sobre BIM, inscreva-se na newsletter.
Referências
AUTODESK. Eiffel Tower: experience the site in 3D. Autodesk Blogs, 11 mar. 2019. Disponível em: https://www.autodesk.com/blogs/aec/2019/03/11/eiffel-tower-experience-site-3d/. Acesso em: 27 out. 2026.
CHEN, B.; JIANG, S.; QI, L.; SU, Y.; MAO, Y.; WANG, M.; CHA, H. S. Design and implementation of quantity calculation method based on BIM data. Sustainability, v. 14, n. 13, 7797, 2022. DOI: 10.3390/su14137797.
GOOGLE ARTS & CULTURE. A construção da Torre Eiffel. Disponível em: https://artsandculture.google.com/exhibit/AQIqOkVv. Acesso em: 27 out. 2026.
ISO 16739-1:2018. Industry Foundation Classes (IFC) for data sharing in the construction and facility management industries. Part 1: Data schema. Genebra: ISO, 2018.
ISO 19650-1:2018. Organization and digitization of information about buildings and civil engineering works, including building information modelling (BIM): Information management using building information modelling. Part 1: Concepts and principles. Genebra: ISO, 2018.