IA Generativa + BIM (Parte 1)

IA Generativa + BIM (Parte 1)

O que já dá para automatizar hoje em projetos, obras públicas e infraestrutura urbana

Quando escrevi Desvendando Metodologia BIM, meu foco era ajudar profissionais e organizações a dar o primeiro passo: sair do CAD 2D, estruturar processos, entender normas como a ISO 19650 e perceber que o BIM é muito mais do que “um 3D bonito”.

Depois, em BIM em Infraestrutura Urbana, aprofundei o BIM aplicado a rodovias, drenagem, pontes, portos, aeroportos, ferrovias e mobiliário urbano, sempre com o pé na realidade brasileira, nos decretos, cadernos BIM e obras públicas.

Mais recentemente, em IA em BIM: Como Automatizar Tarefas, Projetar Melhor e Ganhar Tempo com Inteligência Artificial, avancei para a pergunta que mais tenho escutado:

IA Generativa em BIM é só hype ou já existe algo que eu possa usar HOJE, com projeto real, obra pública, PB/PE, cronograma apertado e órgão de controle olhando tudo?

Com base na pesquisa e na prática, a minha resposta é clara: já dá para usar, e com impacto concreto.

Neste primeiro artigo da série, eu quero mostrar:

  • como a IA Generativa se encaixa no ecossistema BIM que eu já venho trabalhando;
  • o que ela já automatiza hoje, sem que você precise reinventar todo o seu fluxo.
  1. Do BIM “tradicional” ao BIM com IA Generativa

No IA em BIM (especialmente no capítulo 1), eu resumo o salto assim:

  • BIM tradicional é um modelo 3D com informação: paramétrico, coordenado, com 4D, 5D, 6D, 7D, clash detection, quantitativos, análises etc.
  • BIM com IA é o mesmo modelo, mas acoplado a “motores inteligentes” que aprendem com dados, geram alternativas, automatizam tarefas e me ajudam a decidir.

No capítulo 1.4 do livro, eu comparo esses dois mundos e mostro que:

  • o modelo deixa de ser apenas um “repositório” de informação;
  • e passa a ser um sistema que aprende, antecipa problemas e sugere caminhos.

Quando falo especificamente de IA Generativa, eu penso em quatro frentes principais:

  1. Texto – geração de memoriais, relatórios, pareceres, justificativas, e-mails técnicos.
  2. Imagem – renders, ilustrações conceituais, variações visuais, materialidades.
  3. Código – scripts Dynamo, plugins em Python/C#, extensões para PyRevit, macros.
  4. Geometria / solução de projeto – design generativo, layouts otimizados, variações formais.

A IA Generativa não substitui o BIM. Ela usa aquilo que o BIM organiza (modelo, parâmetros, normas, dados históricos) para criar, testar e automatizar.

  1. Plugins de IA Generativa: ganhos rápidos dentro e ao redor do Revit

Uma porta de entrada muito prática para IA em BIM são os plugins que se conectam ao Revit (e a softwares vizinhos) e trazem IA direto para a rotina de projeto. No capítulo 2 de IA em BIM, eu organizo isso em alguns grupos; aqui, destaco os que tenho visto gerar resultado mais rápido.

2.1 IA Generativa para texto: documentação, memoriais e relatórios

Na prática, eu tenho usado modelos de linguagem (como o próprio ChatGPT) para:

  • transformar tabelas e parâmetros BIM em texto técnico estruturado;
  • automatizar partes pesadas de relatórios e memoriais;
  • responder a demandas de órgãos públicos com base nos dados do projeto.

O fluxo costuma ser assim:

  1. Eu extraio do Revit, Civil 3D ou InfraWorks:
  • tabelas de quantitativos;
  • parâmetros de elementos (materiais, dimensões, códigos);
  • resultados de análises (clashs, volumes, vazões, níveis d’água, etc.).
  1. Eu alimento a IA com:
  • esses dados estruturados (CSV, Excel, JSON, ou texto organizado);
  • trechos de normas, cadernos BIM, BEP e referências técnicas;
  • o contexto: tipo de obra, órgão contratante, etapa (PB, PE, as built).
  1. A IA Generativa devolve rascunhos de:
  • memoriais descritivos coerentes com o modelo;
  • relatórios de compatibilização (arquitetura x estrutura x instalações);
  • pareceres técnicos ou resumos executivos para gestão pública;
  • minutas de resposta para ofícios e questionamentos de controle externo.

Isso reduz bastante o tempo que eu gastava “batendo texto” e me permite concentrar energia naquilo que ninguém pode fazer por mim: revisar critérios, interpretar resultados, justificar tecnicamente e assumir responsabilidade.

2.2 IA Generativa de imagem: Veras, Firefly e afins

No livro, eu comento ferramentas como Veras e Adobe Firefly como suportes visuais para arquitetos, urbanistas e engenheiros que precisam comunicar ideias.

Na prática, eu uso assim:

  • pego uma vista 3D básica do modelo BIM;
  • passo essa vista para um plugin como o Veras, que usa modelos generativos de imagem;

E recebo como retorno:

  • imagens conceituais em diferentes estilos;
  • variações de materialidade;
  • cenas que ajudam a explicar o projeto para quem não lê planta/corte.

Isso é especialmente útil quando falo de:

  • drenagem urbana com soluções baseadas na natureza (SbN);
  • parques alagáveis, “cidades-esponja” e parques ecológicos (tema de O Arquiteto da Água e de Paracambi Cidade Resiliente);
  • requalificações urbanas que vão passar por consulta pública.

Nesses contextos, a IA não está ali apenas para “embelezar” o projeto. Ela facilita a comunicação de conceitos complexos (retenção, amortecimento de cheias, infraestrutura verde) para gestores, comunidades e órgãos ambientais.

2.3 IA Generativa de design: Architechtures, Arqgen, ARK, Dynamo

Em IA em BIM, eu apresento plataformas como Architechtures, Arqgen e a própria lógica de design generativo via Dynamo e/ou Rhino+Grasshopper.

O padrão de uso é:

  1. Eu defino restrições e objetivos:
  • área máxima, gabarito, afastamentos, taxa de ocupação;
  • requisitos de iluminação natural, ventilação, conforto;
  • metas de custo aproximado, eficiência de circulação, áreas destinadas a SbN.
  1. A IA Generativa explora dezenas ou centenas de combinações dentro dessas regras.
  2. As soluções selecionadas são trazidas para o ambiente BIM (Revit/Civil 3D/InfraWorks) para:
  • análise mais fina;
  • compatibilização com as demais disciplinas;
  • documentação contratual.

Gosto particularmente desse tipo de abordagem em:

  • habitação e equipamentos públicos padronizáveis;
  • estudos de ocupação de áreas sujeitas a alagamento;
  • estruturas urbanas com forte condicionante normativa.

Nesses casos, eu deixo de ser apenas “desenhista de opção única” e passo a atuar como curador de alternativas, como discuto no capítulo de algoritmos generativos do IA em BIM.

  1. IA Generativa como ponte entre BIM, PDFs e automações

Em Desvendando Metodologia BIM e BIM em Infraestrutura Urbana, eu insisto em um ponto: a realidade brasileira ainda é uma mistura de:

  • BIM em níveis variados de maturidade;
  • CAD 2D;
  • muitos documentos em PDF.

É exatamente aqui que a IA Generativa mostra sua força como cola entre o mundo estruturado do BIM e o mundo “solto” de documentos, normas e experiências passadas.

3.1 Comparação PB x PE como caso típico

Em muitos contratos, sobretudo de infraestrutura, eu lido com dezenas de pranchas de Projeto Básico (PB) e Projeto Executivo (PE), mais memórias de cálculo e relatórios espalhados.

A IA tem me ajudado a:

  • ler e comparar grandes conjuntos de pranchas PB e PE (ainda que em PDF);
  • identificar divergências de dimensionamento, traçado e critérios;
  • organizar essas diferenças em listas priorizadas por impacto (baixo, médio, alto).

O fluxo pode usar BIM quando existe modelo, ou ficar só nos PDFs quando ainda estamos em “pré-BIM”. Em qualquer caso, o padrão é o mesmo: extrair dados → IA analisa → eu reviso e decido.

Detalho os fluxos técnicos com Dynamo e PyRevit na Parte 2 da série.

  1. O que já é “para hoje” e o que vem depois

Cruzando IA em BIM com Desvendando Metodologia BIM e BIM em Infraestrutura Urbana, eu vejo assim:

4.1 Já dá para fazer hoje

  • Gerar memoriais, relatórios e pareceres a partir de dados do modelo + normas, usando LLMs.
  • Apoiar a comparação PB x PE, via PDFs ou dados BIM, e traduzir isso em listas de divergências e rascunhos de relatório.
  • Criar renders e imagens conceituais (Veras, Firefly) a partir de vistas BIM, para comunicação técnica e pública.
  • Usar design generativo guiado em Architechtures/Arqgen para layouts e volumetrias no Revit.
  • Integrar Dynamo/Rhino/Grasshopper/PyRevit com IA para automações específicas em drenagem, rodovias, edificações e mobilidade.

4.2 Em consolidação

  • Agentes de IA especializados por domínio (drenagem, rodovia, acessibilidade, incêndio, TACs).
  • Fluxos padronizados de IA+BIM para o setor público (obras federais, estaduais, municipais).
  • Integração de IA+BIM+GIS para planejamento de infraestrutura resiliente e cidades-esponja.
  1. Fechando a Parte 1 da série

Tudo o que desenvolvi nos capítulos 1, 2 e 3 do IA em BIM converge para uma ideia central:

Não faz sentido enxergar IA Generativa como algo “fora” do BIM.

Quando bem integrada, ela é o próximo passo natural de um BIM que já organiza informação, padrões e processos.

Neste primeiro artigo, eu quis:

  • situar a IA Generativa dentro do arcabouço que venho construindo nos livros;
  • mostrar onde ela toca diretamente o dia a dia de quem projeta, documenta, orça e presta contas, com ou sem modelo 100% BIM.

Na Parte 2, eu aprofundo:

  • Dynamo, Rhino & Grasshopper, PyRevit e APIs com IA;
  • exemplos concretos de automação em infraestrutura, drenagem, PB/PE e verificação normativa.

E na Parte 3, levo a conversa para:

  • infraestrutura pública, cidades resilientes, TACs ambientais, Decreto 10.306/2020, Estratégia BIM BR e transparência em contratos.